20 Anos de saudade

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Era manhã do dia 21 de agosto de 1989, uma segunda-feira, quando Raul Seixas foi encontrado morto em sua cama. Uma pancreatite aguda, causada pelo excesso de bebida, tirou de cena um dos maiores artistas que o Brasil já viu. Cantor, compositor, músico com mais de 20 discos lançados, filósofo, maluco beleza, crítico afiado da sociedade brasileira, o baiano partiu em um de seus momentos mais produtivos.

"No ano de sua morte ele se expôs imensamente. Foi um período importante para a disseminação de seus pensamentos. Naquele momento, Raul cumpria o que disse Guimarães Rosa, num discurso para a Academia Brasileira de Letras: a gente morre pra provar que viveu", acredita o jornalista, professor e mestre em Estudos Literários Adolfo Oleare, que, ao lado de Maurício Abdalla, Wilson Coelho e Sérgio Amaral, participa de um debate-papo sobre Raul nesta sexta-feira, na Ufes.

Os 20 anos de morte de Raulzito serão marcados em todo o país com programação diversificada e lançamentos como o CD e DVD "20 Anos Sem Raul Seixas", que traz documentário e música inédita, "Gospel", censurada em 1974. Hoje, em Vitória, acontece show e defesa de dissertação sobre o artista. Em "Novo Aeon: Raul Seixas no Torvelinho de seu Tempo", Vitor Cei analisa o conceito proposto por Raul em um disco de mesmo nome, lançado em 1975. "Ele tomou como base os trabalhos do escritor ocultista britânico Aleister Crowley e criou o conceito de nova era. Na dissertação, eu faço uma análise das letras das canções e um contraponto com o trabalho dele na década de 80, quando abandona a ideia de sociedade alternativa", explica Vitor.

Para ele, Raul é fonte inesgotável de estudos. "Ele procurou fazer um trabalho único sem se regular por modismos ou tendências. Não se considerava enquadrado em estilo nenhum, misturava rock com ritmos do Nordeste e suas raízes baianas. Foi um toque de pensamento para a música popular. Na época tinha muito iê-iê-iê. Ele trouxe uma música mais crítica e questionandora", analisa.

E soube bem escolher seus parceiros para isso, como Paulo Coelho, com quem divide a autoria de muitos sucessos, e o cachoeirense Sérgio Sampaio, com que gravou o disco "Grã-Ordem Kavernista Apresenta - Sessão das 10", de 1971.

Essa obra influenciou gerações, como o professor de Filosofia da Ufes Maurício Abdalla. "O fato de eu resolver estudar Filosofia está relacionado a ele. Marcou minha vida por causa das letras. A minha forma de ser hoje, minha vida intelectual, minha participação no meio acadêmico. Tenho essa cultura raulseixista: liberdade para viver sem máscara, sem pose", diz.

Abdalla lembra que, logo após a morte do compositor, muitas pessoas que não o conheciam se aproximaram. "Mas os fãs conhecem a obra além das músicas mais famosas, como 'Metamorfose Ambulante' ou 'Maluco Beleza'. O problema é que a maioria das pessoas não têm acesso não somente a Raul, mas a várias riquezas musicais do Brasil", lamenta.

Vocalista do grupo Bandolo, que finalmente vai realizar o pedido corriqueiro em shows, de "toca Raul" - Carlos Rabelo promete agradar a todos os tipos de fãs em show logo mais no Cochicho da Penha, na Rua da Lama. No repertório, "As Profecias", "Sessão das Dez", "Medo da Chuva" e por aí vai. "Aprendi a tocar por causa de Raul. Para nós, ele deixou a força das suas letras e a fusão musical", completa.

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