Com disco de ouro na bagagem, Fresno lança DVD e foge do rótulo 'emo'

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Banda gaúcha lança o DVD ao vivo ‘O outro lado da porta’.
Vocalista Lucas Silveira fala sobre rótulos, underground e novo disco.



“O outro lado da porta”, primeiro DVD da banda gaúcha Fresno, é, nas próprias palavras do vocalista e guitarrista Lucas Silveira em entrevista ao G1, “um complemento, um respiro” para “Redenção”, o álbum de estreia do grupo em uma grande gravadora. Com um repertório baseado no disco de 2008 (com adição de músicas da fase independente da banda), o novo trabalho tem um aspecto diferente dos outros DVDs musicais ao vivo do mercado – foi gravado em estúdio e não em algum show.

“Nós sentimos uma demanda por algo que mostrasse mais quem a gente é, a nossa música da maneira mais despida possível, mas que fosse um complemento da nossa identidade”, reflete Lucas sobre a decisão de trocar a ideia mais comum, um show com os fãs, pela banda em estúdio. “Queríamos mostrar mais da música, sem firulas, afinal a mídia acaba explorando muito nosso lado extramusical”.

Rock gaúcho

No total são 15 músicas gravadas ao vivo, de “Redenção” a “Milonga”, passando por hits como “Uma música” e “Alguém que te faz sorrir” e músicas do começo da carreira, como “Stonehenge” e “O gelo”. Entre as faixas, depoimentos dos membros da banda – Lucas, o baixista e vocalista Rodrigo Tavares, o guitarrista Gustavo Mantovani e o baterista Rodrigo Rushcell – falando do seu cotidiano, do processo de gravação de “Redenção”, das auguras de se morar em São Paulo e da saudade do Rio Grande do Sul.

“A gente não faz o rock gaúcho que ficou conhecido com o Engenheiros do Hawaii e com o Cidadão Quem, mas essa distância, morando sozinhos em São Paulo há mais de ano, nos fez ‘mais gaúchos’. ‘Redenção’ (que leva o nome do Parque da Redenção, no centro de Porto Alegre) é um disco que reflete essa saudade, nós até passamos a ouvir rock gaúcho”, confessa.

Emo

Além das inspirações e histórias, a banda também fala sobre o famigerado ‘emo’, rótulo que grudou no Fresno. “Chegou um ponto em que era quase impossível falar sobre a banda sem perguntarem sobre o nosso cabelo ou o nosso estilo, e isso passou a incomodar bastante, quando o ‘visual’ associado ao emo passou a ditar a visão sobre o Fresno” desabafa Lucas. “Acho incrível que no século XXI as pessoas ainda tenham preconceito com essa parte estética”.

Porém o cantor deixa claro que o problema é como o gênero é tratado pela mídia. “O ‘Redenção’ foi muito influenciado pelos trabalhos mais recentes do Jimmy Eat World, por exemplo. Se alguém viesse falar com a gente perguntando se somos ‘emo’ citando uma banda como eles ou Sunny Day Real Estate ou Embrace, eu ficaria feliz, mas só comparam a gente com Simple Plan e correlatos”.

“Nem sei o que os caras do Sunny Day ou o Ian McKaye (ex-vocalista do Minor Threat, Embrace e Fugazi) têm a dizer sobre o emo. Mas todas essas bandas já se esquivaram disso fazendo um disco muito bom – seja torto, como no caso do ‘Rising tide’ do Sunny Day, seja um álbum mais pesado. E é isso que estamos procurando com nosso próximo CD”, complementa, falando do disco ainda sem nome que deve ser lançado até o final do ano.

Liberdade

Para isso, a Fresno diz contar com total liberdade dentro do selo Arsenal, do produtor Rick Bonadio – associado à major Universal e casa de bandas como NX Zero e Titãs. “O gerenciamento de carreira está em nossas mãos. Um empresário tem dez bandas, se uma não der certo, ele pode contar com outras nove. Nós temos apenas a nós mesmos”.

Para Lucas, o rock brasileiro parece estar em crise. “Estamos no momento em que se decide quem fica e quem vai. Hoje um grupo faz um show um pouco mais bombado em São Paulo e já tem empresário, logo está numa gravadora – isso está matando o undeground”, diz, e compara com o grunge nos EUA no começo da década de 90. “As pessoas olham para a gente e dizem ‘vocês são uma banda como essas aí’, como tudo no mesmo saco – é como oAlice in Chains e Stone Temple Pilots sob o mesmo rótulo”.

“Até o Kurt Cobain, a grande estrela daquela época, fugia disso, ele queria ser como o R.E.M., um grupo que não recebia o olhar torto das pessoas. É o equivalente a dizer que nós gostaríamos ser como um Los Hermanos, que ainda estaria fazendo shows lotados, com seu próprio público, se não tivesse acabado. E é isso que estamos tentando fazer”, explica.

Depois de atingir a marca de disco de ouro (50 mil cópias vendidas com “Redenção”), Lucas sabe bem dos perigos de tocar no rádio (“É claro que alguém que conheceu a gente na internet sozinho nos entende melhor do que quem ouviu nosso som no rádio, de passagem”), apesar de achar que essa é uma fase importante para o Fresno. “Essa é a hora de nos firmarmos, aparecermos na mídia, para as pessoas nos conhecerem melhor”.

Mas a ambição de fazer um disco com o qual se identifiquem e a convicção de estarem no “caminho certo” fala mais alto. “Eu confio no nosso público, e sei que eles estão esperando novidades. É um álbum mais áspero, não acaricia o ouvido como o anterior. Existe um medo (de perder audiência), mas é isso que faz a vida interessante: fazer algo com uma convicção tão grande que acaba dando certo. É assim que a gente sempre trabalhou”.

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